CRIAÇÃO DO CAVALO ATLETA
PARTE I: DA COBERTURA AO PARTO
Devido ao constante progresso das associações de criadores de cavalos e ao alto nível competitivo e comercial impostos,
o cavalo tem se transformado num verdadeiro atleta, tendo seu desempenho exigido ao máximo. Face a esta realidade, fez-se necessário
o desenvolvimento profissional técnico na mesma proporção, apto a suprir as necessidades dos criadores e proprietários
do cavalo. Podem se incluir aqui a criação e reprodução eqüinas, sendo estas, áreas de grande importância
dentro de uma propriedade. Os resultados competitivos tem início aqui, onde a base dos atletas a serem criados deverá ser sólida.
GARANHÃO
Afim de facilitar o manejo durante a estação de monta, é imperativo programar a utilização do garanhão quanto
ao número de éguas a serem cobertas e tipo de cobertura a ser realizada, ou seja, monta natural ou inseminação artificial, e
nesta, sêmen fresco, resfriado ou congelado. Para que isto ocorra terão de se realizar exames físicos e andrológicos antes do
início da temporada. Estes “exames de Outono” são úteis para identificar a capacidade reprodutiva do animal, e assim selecionar
o melhor método de cobertura a ser utilizado.
Em haras onde o manejo reprodutivo é intenso, este exame poderá ser realizado mensalmente, com o objetivo de se estabelecer uma curva anual
baseada na concentração espermática, propiciando assim excelente controle do sêmen e antecipando alterações bruscas
na taxa de fertilidade.
Alguns cuidados quanto ao manejo deverão também ser tomados antes do inicio da atividade reprodutiva. Entre os mais importantes se destacam a
manutenção de um estado corporal atlético, pronto para coberturas diárias, evitar vacinas que possam causar febre, pois isto se
refletirá negativamente durante a temporada e manter uma rotina diária durante a estação de monta, condicionando assim o animal
e evitando qualquer tipo de estresse.
Quanto á alimentação, evitar mudanças na qualidade e quantidade da ração a ser ministrada. Poderão ser
utilizados neste período, precursores de ácidos graxos polinsaturados para aumentar em até 1,5 a concentração
espermática e a qualidade do sêmen congelado, prática esta que está sendo bastante difundida.
ÉGUAS
O foco da reprodução está na taxa de concepção das reprodutoras. O resultado final da temporada de monta acontece
sempre no ano seguinte, com o nascimento do potro. Esta sim é a real taxa de aproveitamento reprodutivo. No entanto, vários fatores
influenciam este índice e o sucesso depende da perícia com que são manejados.
Entre os fatores que diretamente determinam a eficiência reprodutiva das éguas estão o estado corporal, tipo de
alimentação, idade, condição reprodutiva (vazia, virgem ou parida), tipo de cobertura a ser empregada e a
presença de infecções.
A reprodutora deverá estar saudável para a concepção, isto é, ter um estado corporal atlético
compatível com a idade, alimentação balanceada, estar ciclando corretamente e possuir sanidade reprodutiva, ou seja,
sem problemas físicos e infecciosos no trato reprodutivo.
Levando em consideração a cobertura, as afecções poderão ser divididas em: pré-cobertura (anestro,
endometrite, cistos uterinos, falha em mostrar cio, problemas físicos) e pós-cobertura (endometrite pós-cobertura, falha
na ovulação, morte embrionária precoce, aborto e distocia).
Estes problemas poderão ser atenuados com o uso de algumas práticas como:
exames ginecológicos realizados nas éguas vazias antes da temporada detectando anormalidades e sua pronta resolução
antes do inicio da estação;
programas de luz artificial, inclusive para éguas em anestro pós-parto, ajudando na atividade ovariana;
uso de rufião na propriedade;
escolha correta das éguas que deverão ser cobertas no cio de potro, evitando assim contaminações uterinas;
determinação do tipo de cobertura mais apropriado para as éguas problemas e idosas;
manutenção de programa nutricional adequado para cada fase gestacional;
acompanhamento veterinário mensal da égua prenha.
Todos estes fatores se aplicam também á prática da transferência de embriões, onde a sanidade, tanto da doadora
como da receptora, resulta em melhor qualidade e maiores taxas dos embriões coletados e sua conseqüente concepção.
Atualmente, a profilaxia é a prática de maior atenção nos eqüinos. Um programa de vacinação correto de
um plantel, evitará surtos infecciosos e conseqüentes abortos, o uso de imuno- estimulantes uterinos evita não só
endometrites inconvenientes como também algumas placentites, e a vermifugação deverá ser levada em
consideração, já que alguns parasitas passam da mãe para o produto.
O importante é estabelecer um ambiente saudável na propriedade, priorizando a convivência com a flora existente e não
a sua modificação ou total degradação.
Outro fator que poderá levar a alterações no manejo da reprodutora é a determinação do sexo do feto,
realizada entre 60 e 70 dias de gestação. Isto possibilitará os criadores de tomarem decisões em relação
ao objetivo comercial da égua e do futuro produto, local de parto e escolha de garanhão.
Quanto ao parto, a égua deverá ser preparada um mês antes e ser planejado de que forma se dará, dentro ou fora da
cocheira, com intervenção humana ou não. De qualquer forma, é importante que seja assistido, pois desta maneira
poderão ser evitadas várias complicações como lacerações nas éguas e asfixia dos recém
nascidos, bem como evitar acidentes entre a nova unidade égua-potro.
SUGESTÕES DO AUTOR
1. Os garanhões devem estar em bom estado nutricional, prontos para a temporada. Caso isto não seja possível, é
preferível que estejam um pouco acima do peso do que abaixo. O ideal seria trabalhar os animais antes da estação, para
adquirirem bom condicionamento físico e boa libido.
2. Condicionar os garanhões previamente quanto ao tipo de cobertura, ou seja, monta natural ou coleta de sêmen, e esta última
em égua cavalete ou em manequim. Tentar não misturar as práticas durante a mesma temporada.
3. A quantidade de ração a ser fornecida ás éguas prenhas não deverá ser diferente das demais
éguas até o último trimestre, onde então deverá ser aumentada a quantidade em até 1,4 vezes. O consumo de
água nesta altura também é importante e deverá ser oferecida á vontade, evitando assim problemas como
desidratação e cólicas.
4. A parição não deixa de ser uma atividade atlética. Manter as éguas a campo é um
bom exercício, pois permite liberdade de movimentos e melhor oxigenação tecidual.
5. Devido aos embriões eqüinos serem mais frágeis do que outras espécies, especialmente antes dos 30 dias de
gestação, tentar evitar causas de estresse que levem a um desequilíbrio hormonal uterino com conseqüente morte
embrionária.
6. A vacinação e vermifugação são práticas sanitárias seguras de serem utilizadas nas éguas
prenhas sem problemas maiores.
Assistir aos partos auxiliará no reconhecimento precoce de futuros problemas com égua e potro, sendo fator determinante para a sobrevida
de ambos.
PARTE II: DO NASCIMENTO AO DESMAME
O parto é um dos adventos mais esperados pelos criadores ao longo do ano, onde, após a idealização criteriosa de um
cruzamento, as expectativas em relação ao produto nascido tem seu fim.
Este fenômeno apresenta dois aspectos: o primeiro relativo á égua, que, após onze meses de gestação
(340 dias em média), tem (re)ativado o seu instinto materno, e o segundo relativo ao potro recém nascido, que terá de
passar por uma série de processos fisiológicos até sua adaptação total ao meio e ter ativado seu instinto
de sobrevivência.. Daí a necessidade de se dar também importância á integração égua-potro,
e não somente a estes em separado. As éguas formam forte ligação com seus potros mesmo antes do nascimento. Esta
ligação tem inicio logo após a ruptura da bolsa onde a égua cheirando e lambendo as águas que libera no
chão, poderá identificar o potro que está prestes a nascer como seu legítimo. O olfato e gosto são mais
importantes para o reconhecimento do potro do que a visão e audição. Sem a presença dos seus potros as éguas perdem
este forte instinto materno no máximo em 4 dias. Em contrapartida, os potros não tem essa ligação tão forte com
suas mães, principalmente durante as primeiras semanas de vida, período em que seus instintos são motivados pela fome, pela
ação repelente de outras éguas no lote e pela constante proximidade de suas mães num raio de 5 metros.
No entanto, esta ligação materno-filial pode ser facilmente interrompida por qualquer uma das partes devido a complicações
patológicas ou por distúrbios comportamentais durante o período de amamentação.
ÉGUA
Um fator importante e indispensável para o início da atividade materna é a formação de colostro de boa
qualidade e produção de leite com bom volume diário. Isto poderá ser conseguido através de acostumar a
égua ao local de parto um mês antes da data prevista , vacinação no último mês de gestação e
fornecimento de uma alimentação correta.
Quanto ao parto propriamente dito, é de ressaltar que quanto mais se aproximar do natural, melhores resultados se terão.
Isto não significa que não se deve intervir, muito pelo contrário. A intervenção pode ocorrer desde que seja
sempre com o intuito de prevenir complicações e não alterar a fisiologia de égua e potro.
Outro aspecto importante é relativo á nutrição, pois deve-se levar em conta que a égua tem de se alimentar para
se sustentar, dar de mamar ao potro e manter nova gestação, tudo simultaneamente. Sendo assim, é imperativo que a
alimentação fornecida seja de boa qualidade e em níveis adequados, e não se deve esquecer que o potro irá
compartilhar com ela esse alimento. No balanceamento da ração de uma égua amamentando, levar em consideração
também a necessidade nutricional do potro.
Facilitar o contato social entre as éguas e seus potros, propiciar área suficiente para pastoreio, para que assim os animais atinjam
a média diária de locomoção e permitir sim a instituição de uma hierarquia dentro de cada lote, são
práticas que evitarão o estresse materno e habilitam o exercício entre os potros.
Dentre as complicações que afetam a integração égua-potro os mais comuns são problemas de falha na
produção de leite e colostro, distocias, complicações pós parto como hemorragias e cólicas, e dentro dos
distúrbios comportamentais, agressão ou rejeição maternas.
POTRO (POTRANCA)
Logo após o parto, o feto se torna neonato. Esta transição se dá num intervalo muito curto, onde haverá
transformações principalmente cardíacas, circulatórias e respiratórias. Além do mais o neonato deve
estar apto a se levantar, alimentar e locomover. Atenção deve ser dada nos primeiros 5 minutos de vida á presença ou
não de asfixia ocorrida durante o parto. Isto poderá ser conseguido através do uso da tabela APGAR modificado. É
importante salientar que a quantidade de sangue que é passada para o potro através do cordão umbilical é a mesma que
retorna do potro para a égua, não havendo assim a necessidade de esperar passar a maior quantidade possível de sangue.
Ao contrário do que se pensa, os potros não nascem sem anticorpos e sim com baixa quantidade deles. Baseado nisto, e de acordo com
as características imunológicas dos potros recém nascidos, algumas vacinas poderão ser realizadas já na primeira
semana de vida. No entanto, é de primordial importância que os potros tenham ingerido quantidade suficiente de colostro até 6
horas após o parto para manter uma boa atividade imunológica durante os três primeiros meses de vida.
Os vermífugos deverão ter início aos 20 dias de vida para evitar infestações provenientes da égua e do
vício da coprofagia. Ter cuidado também com a chamada diarréia do “cio do potro”. Apesar de natural,
algumas poderão ter simultaneamente origem infecciosa.
Também neste período já se evidenciam algumas deformidades ortopédicas e de aprumos, que, quando corrigidas cedo,
possibilitam melhores resultados de conformação dos potros.
O início da alimentação individual deverá levar em conta o desenvolvimento do potro e a qualidade do leite da égua.
Em média, isto se dá entre os 2 e 3 meses de vida.. Cuidados como balanceamento da ração e o modo como esta é
fornecida são importantes para o futuro desenvolvimento atlético. Nesta etapa, os minerais são essenciais para a
formação de uma estrutura óssea sólida, capaz de sustentar uma boa musculatura.
Para o desmame, peso e idade são primordiais, sendo respectivamente 230 Kg e 5 meses os requisitos mínimos para tal.
Saber controlar o nível de estresse acarreta em melhor desenvolvimento e menor perda de peso na primeira semana de desmame. Conseqüentemente
haverá também uma redução na perda de nutrientes retirados dos órgãos, promovendo assim um equilíbrio
estrutural do potro desmamado, sem oscilações.
É de extrema importância que na altura do desmame os lotes já tenham estabelecido uma organização social,
superando assim rapidamente a falta da mãe. No entanto a falta do leite deverá ser suplementada.
SUGESTÕES DO AUTOR
1. Manter as éguas próximas de parir perto do local de parto. Permitir que se socializem entre elas e que os lotes sejam formados
por data de nascimento ou pelo sexo do neonato.
2. Manter banco de colostro.
3. No momento do parto usar de higiene. Isto não significa que terão de se usar desinfetantes. Significa sim o uso de luva,
sem lubrificante, para manipulação no canal do parto e uso de material limpo e apropriado.
4. Quanto ao potro recém nascido, desinfetar o umbigo com iodo 8%, não secar seu pêlo, não dar nada via oral a
não ser colostro, mantê-lo em posição esternal logo após o nascimento e permitir a movimentação
voluntária e não induzida.
5. Confirmar sempre a primeira mamada do potro e aferir quantidade ingerida de anticorpos.
6. Aplicar enema no potro para facilitar defecação do mecônio e evitar sua retenção.
7. Soltar ambos sempre na manhã seguinte, promovendo exercício e de preferência, nos primeiros 3 dias, separados do lote,
em uma mangueira maternidade.
8. Evitar a separação de égua e potro antes do desmame, mesmo que momentânea. Somente em último caso.
9. Sempre promover boa imunidade do potro através de vacinação adequada.
Não ordenhar a égua após o desmame e continuar alimentando-a normalmente.
Resumindo, não se deve esquecer que o cavalo é um animal extremamente social e que adora a rotina. Sendo assim, deverão se evitar
ou minimizar as causas de estresse que tenha influência negativa na criação do potro e que atrasem sua evolução.
PARTE III: DO DESMAME Á DOMA
Após o desmame, o potro é considerado individualmente independente, mas não socialmente. É neste período
crítico que são consolidadas suas bases estruturais, sociais e comportamentais. O que fazer para tornar um cavalo campeão?
Uma forte consciência de realizar uma nutrição e manejos adequados. É através de uma boa criação que
serão formadas estas importantes características que se refletirão positivamente no desempenho atlético do animal.
Neste último capítulo será abordada a fase que vai do desmame até aproximadamente os 18 meses de idade, quando ocorrem a
doma e o treinamento.
DO DESMAME ATÉ 1 ANO DE IDADE
Quando desmamado, o potro passa por um estresse altíssimo, pois não só falta da mãe mas também o hábito
da mama e a presença do leite na dieta lhe foram tirados. Algumas medidas podem ser utilizadas para atenuar este processo. Dentre elas, a
formação do lote social antes do desmame com a presença de uma ama junto ao grupo de jovens potros e promover um crescimento
moderado, para evitar problemas ortopédicos devido a ocorrerem várias alterações e adaptações na musculatura
esquelética.
Nesta fase, o aspecto nutricional é o mais preocupante, pois ocorre importante modificação no tipo de fibra muscular. Isto leva
a um aumento da capacidade oxidativa das fibras musculares, na medida em que os cavalos passam de velocistas (fator de sobrevivência para os
potros recém nascidos) para explosão (acúmulo de energia) chegando ao controle de ambos, velocidade e explosão, nos
cavalos adultos. Modificações ocorrem também no trato intestinal, onde haverá alteração da flora e de
algumas enzimas digestivas. Nesta altura o potro já deverá estar comendo seu próprio alimento individualmente.
Enquanto um potro atinge cerca de 70% de seu peso de adulto no primeiro ano de idade, a sua mineralização óssea atinge
apenas 57%. A mineralização máxima ocorre somente aos 6 anos de idade. Devido a este fator, há a necessidade de saber
balancear corretamente a alimentação e principalmente o componente mineral. É de salientar que este é um
período crítico pois o que for perdido aqui, dificilmente será recuperado.
O fator exercício produz benefícios á cartilagem articular e aumenta a taxa de crescimento ósseo durante os 8
primeiros meses de vida. Após esta idade, as correções ortopédicas por casqueamento se tornam muito difíceis.
Acidentes, problemas músculo esqueléticos, infestações por vermes, infecções bacterianas e virais tem
impacto negativo no crescimento e desenvolvimento. A prevenção de problemas deverá ser o objetivo primário em potros
de qualquer idade.
DOS 12 AOS 18 MESES
Este é um período de crescimento lento. Aqui se deverão solidificar as bases do crescimento, através de uma boa
formação muscular, com irrigação sanguínea proporcional. Ocorrem também as diferenciações
físicas entre machos e fêmeas, onde as fêmeas tendem ao crescimento em altura e os machos em massa muscular. Os hormônios
sexuais nesta fase exercem grande influência no desenvolvimento do cavalo atleta. As prolongadas fases de cio nas potrancas levam a grande
desgaste energético, e nos machos, a competição hierárquica e por vezes a masturbação. Estes gastos de
energia são saudáveis e deverão ser manejados normalmente. Fazem parte da natureza do cavalo e não devem ser coibidos.
É também durante este período que acontece a formação final das cartilagens articulares e o fechamento das placas
de crescimento ósseo mais requisitadas. Isto pode (e deve) ser aferido por exames radiográficos, prevenindo qualquer
alteração óssea e articular durante a fase de treinamento.
Desde que sejam realizados de forma racional, a doma e treinamento iniciados aos 18 meses de idade são mais eficazes e não tem nenhum
efeito deletério nos parâmetros clínicos, histológico e biomecânico dos tecidos músculo esqueléticos.
Quanto á doma propriamente dita, esta deverá ter o propósito de formar uma parceria entre cavaleiro e cavalo e não a
submissão do animal. Os procedimentos pelos quais isto é atingido são o mérito de cada treinador e só
deverão dizer respeito a ele e ao proprietário do animal.
Importância deverá ser dada logo após o confinamento em cocheiras para inicio do treinamento, pois ocorre uma
desmineralização óssea levando a dor de canelas. Por isso, o fechamento dos animais deverá ser feito de forma gradativa,
pois esta fraqueza óssea é causada pelo estresse. Um animal previamente acostumado á cocheira sofrerá menos estas
alterações.
Quanto á alimentação nesta fase, é de salientar que os cavalos em treinamento com até 6 anos de idade ainda
estão em crescimento, assim como sob exercício intenso. Sendo assim, a sua ração deverá fornecer níveis
adequados de energia, bem como lisina e outros nutrientes chave.
CONCLUSÃO
Os fatores ambientais como nutrição, exercício e condicionamento são difíceis de quantificar, e o manejo durante a
fase de crescimento e desenvolvimento, bem como tipo de treinamento, influenciam diretamente o potencial do cavalo para o sucesso.
Para elucidar o quanto é importante uma criação correta, segue abaixo o diagrama,
onde 1 representa genética, 2 nutrição, 3 manejo, 4 sanidade e 5 treinamento. Se estes 5 fatores não estiverem devidamente
completos, não teremos 100% da capacidade atlética esperada do cavalo. O trabalho de criação visa o preenchimento de cada
item através de suas interações, de forma a tentar formar um animal capaz de competir com todo o seu potencial.
O programa de criação em um estabelecimento deve levar em conta o que será ser feito durante toda a vida do cavalo atleta,
desde sua gestação até á competição, sabendo que são inúmeros os fatores que interferem
positiva e negativamente nesse processo. Saber manejá-los de forma proveitosa é o segredo para a formação de um verdadeiro
campeão.
A IMPORTÂNCIA DA CRIAÇÃO NO CAVALO DE CORRIDA
O constante progresso da tecnologia, principalmente na área veterinária, tem facilitado muito a produção do cavalo de
corrida. Na mesma medida, a genética do cavalo atleta também evoluiu, sempre buscando melhores resultados, sejam eles competitivos
ou comerciais. Aliás, o fator genético recebe quase toda a atenção por parte de quem compra. Já na mesma
proporção existe uma despreocupação quanto a outros fatores, como nutrição, manejo e sanidade com que
os animais ofertados foram criados.
A formação do cavalo de corrida tem início no haras, mais precisamente na cobertura e tem continuidade nos centros de
treinamento e campos de prova. Este trabalho é puramente artesanal, ou seja, o homem tem influência direta no resultado final.
Cabe a cada criador utilizar os recursos existentes de acordo com seus objetivos e operação.
Para o sucesso da criação, desde a cobertura até o disco final, três fatores são de extrema importância:
GENÉTICA, NUTRIÇÃO E MANEJO.
GENÉTICA E REPRODUÇÃO
Não existe uma regra básica para a formação de um plantel. Os criadores são norteados de acordo com suas
preferências e metas a serem atingidas. Fatores inerentes ás linhagens como resultado competitivo, aptidão e
conformação poderão influenciar na decisão. Na programação da carta de monta, o uso de um
determinado garanhão sempre visa a melhoria física e competitiva da égua a ser coberta e vice versa.
No entanto, o poder genético para corrida poderá ser maximizado através do processo de criação.
Isto implica em determinar as características das linhagens como conversão alimentar, resposta imunológica, transmissão
de suas características de conformação, temperamento e potencial atlético para a sua progênie e estabelecer
parâmetros criacionais para linhas precoces e tardias. A adaptação ao meio ambiente por parte de animais importados
também deverá ser levada em consideração, pois é também fator hereditário.
A memória genética, principalmente nos primeiros meses de vida do cavalo, é ativada pelas atitudes sociais da mãe,
levando assim á criação de um produto com algumas características comportamentais maternas. Daí a
importância da escolha de uma boa matriz com bom pedigree, e, no caso da transferência de embriões, escolha de uma boa
receptora, visando não só a estrutura física e aleitamento, como também temperamento adequado e dentro dos
padrões da raça.
Devemos ressaltar que o resultado genético de um cruzamento é de responsabilidade exclusiva de seu idealizador, ou seja,
além das virtudes esperadas no potro, os defeitos podem vir a prevalecer.
Para garantir a propagação de linhagens importantes, existem hoje várias biotecnologias que nos permitem melhor
aproveitamento reprodutivo e conseqüente genético. Dentre essas práticas encontram-se a inseminação
artificial (IA), transferência de embriões (TE) e congelamento de sêmen e embriões. Essas técnicas auxiliam
na preservação do potencial genético, já que além dos genes serem mantidos congelados por décadas,
podem também ser solucionados alguns problemas de infertilidade, tanto dos garanhões como das éguas, e manter a continuidade
de uma campanha atlética, sem interrupção para a reprodução.
Após a elaboração dos cruzamentos para a temporada de monta, é necessário programar a utilização
do garanhão quanto ao número de éguas a serem cobertas e tipo de cobertura a ser realizada, ou seja, monta natural ou
inseminação artificial, e nesta, sêmen fresco, resfriado (entre 5 e 15 graus) ou congelado (-196 graus). A prática da
IA, que consiste em depositar o semen no útero da égua ou mais recentemente na junção útero-tubárica,
aumenta o aproveitamento reprodutivo do cavalo e o número de éguas a serem cobertas, mas implica, no caso de sêmen resfriado
ou congelado, num intenso controle reprodutivo das reprodutoras, afim de se obterem melhores índices de prenhes, já que existe uma
queda na qualidade espermática.. A IA apresenta várias vantagens como facilitar a logística de uma cobertura, já que
o sêmen pode ser transportado facilmente até o local onde se encontra a égua, evita transmissão de doenças
não só sexualmente transmissíveis mas que afetam a sanidade de um haras, e permite a aquisição de sêmen
a menores custos de garanhões comprovados ou importados. Quanto ás desvantagens poderemos citar o tempo de preservação,
sendo no sêmen fresco 2 a 4 horas e resfriado 24 horas, onde após estes períodos as taxas de fertilidade
diminuem.
Mais especificamente na raça quarto-de-milha, estudos indicam que os garanhões apresentam boa fertilidade, e o sêmen congelado
tem padrões apropriados pós congelamento.
Outro método que auxilia nos índices reprodutivos e na preservação genética é a prática da
transferência de embriões. Esta técnica consiste basicamente em cobrir uma égua doadora, retirar seu embrião
depois de 6 a 8 dias de ovulada, e colocá-lo no útero de uma receptora ou “barriga de aluguel”. Atualmente as taxas
para apenas uma ovulação por doadora são de cerca 60 a 70% de embriões coletados por lavado, e após a
transferência, entre 60 e 70% das receptoras chegam a termo. Isto nos dá uma taxa real de aproveitamento, considerando o nascimento do
produto, de 36 a 49%. As pesquisas hoje são voltadas para a melhoria destes índices, e estes, conseqüentemente,
estão aumentando. A indução da superovulação já é uma prática bastante comum, que leva a
uma maior taxa de recuperação de embriões nos lavados e o uso de hormônios como progesterona auxiliam na
manutenção da gestação da receptora.
O grande problema de hoje em dia é a idade avançada de algumas doadoras e o excessivo número de lavados realizados durante
sua vida reprodutiva. Na tentativa de maximizar o aproveitamento genético de uma égua, temos gradativamente afetado negativamente
seu potencial reprodutivo. Isto é, está ocorrendo uma queda na qualidade dos lavados e dos embriões, e também
nos índices de prenhes, devido ao manejo incorreto das éguas. Além disso, o material utilizado e as técnicas empregadas
devem ser de alta qualidade, visando sempre a preservação sanitária e reprodutiva da égua doadora.
Os embriões podem também ser preservados através do processo de congelamento. Isto permite, por exemplo, o renascimento,
futuramente, de uma linhagem já extinta. O processo de recuperação de embriões é o mesmo, mas ao invés
de se transferir o embrião para a doadora, este passa por um processo de “desidratação” e congelamento em uma
máquina própria para a função. Quando houver o desejo de ser aproveitado, o embrião é descongelado,
“re-hidratado” e implantado na “barriga de aluguel”. As taxas são praticamente as mesmas mas os embriões
terão de ter sido coletados após 6 dias de ovulação.
A TE é um tema bastante polêmico na criação e treinamento, e como todas as práticas, existem vantagens e
desvantagens. Uma das grandes vantagens é de permitir uma égua continuar sua campanha atlética e potencializar sua capacidade
genética, além do aproveitamento comercial. Outra vantagem é a de permitir a concepção de um potro a partir de
éguas sabidamente sub-fertéis ou idosas. No entanto, deve-se permitir à égua ser mãe em intervalos intercalados,
ou seja, um ano de coletas e outro de maternidade. Mais estudos deveriam ser realizados visando o real aproveitamento genético em
competição.
NUTRIÇÃO
A alimentação do cavalo atleta tem influenciado e muito os resultados competitivos, na medida em que visa atender as necessidades
nutricionais básicas do cavalo em qualquer fase de sua vida. Este é um item da maior importância, pois qualquer erro
poderá colocar em risco toda uma geração.
Um desequilíbrio nutricional poderá levar a várias alterações e patologias. No caso do cavalo de corrida podemos
realçar as deformidades ortopédicas resultantes deste desequilíbrio, presentes principalmente na fase de crescimento, e que
podem comprometer toda uma carreira atlética.
Apesar das rações comerciais terem facilitado o aspecto alimentar, é necessário estabelecer que não existe
a “melhor ração” e sim a mais apropriada ao tipo de criação encontrada na propriedade. Isto é devido
a cada estabelecimento ter suas características próprias como qualidade de solo, tipo de pastagem, topografia e manejo. Os animais
podem até ter acesso a todos os nutrientes mas em quantidades diferentes das necessárias, sendo estas diferenças corrigidas
através do uso de uma formulação adequada. Digo formulação pois nem todos os profissionais são adeptos
das rações comerciais e estas nem sempre suprem as carências. O importante é atingir o equilíbrio nutricional
através de alimentos de qualidade comprovada. Entre estes estão a aveia e alfafa, elementos tradicionais na criação
do cavalo de corrida. A continuidade e rotina do fornecimento também são importantes pois evitam o chamado “estresse
alimentar”, bem como alterações bruscas de flora e peristaltismo intestinal que levam a cólicas.
O respeito ás necessidades nutricionais diárias em cada etapa do desenvolvimento é um dos segredos para o sucesso de uma
boa criação. Existem 3 etapas básicas:
a) primária, que vai desde antes da concepção até 1 ano de idade. Neste período, o potro se desenvolve
até cerca de 90% de sua altura e 66% de seu peso como adulto. É um período crítico pois o que for perdido
dificilmente será recuperado.
b) secundária, vai de 1 a 3 anos de idade. Aqui acontece a formação final das cartilagens articulares e o fechamento das
placas de crescimento ósseo mais requisitadas. As restantes tem um processo mais lento e tempo de fechamento mais longo.
c) terciária, onde ocorre o robustecimento do indivíduo até os 5 anos de idade. O nível de atividade física
influencia quantitativamente na alimentação nesta etapa.
A genética óssea e muscular, durante a criação do cavalo, poderá ser levada ao seu limite, bem como ser
melhorada, pois um cavalo de estrutura fina poderá ter sua densidade óssea aumentada, e consequentemente sua resistência
durante as competições. Também a formação de uma musculatura natural, baseada na alimentação,
auxiliará o animal na fase de treinamento e competição, já que haverá irrigação sanguínea
proporcional.
É de salientar que alguns órgãos internos também são considerados músculos e tem desempenho importante
na vida atlética do cavalo de corrida, e sua formação também depende do tipo de alimentação fornecida.
A avaliação do crescimento é feita através da aferição mensal de altura e peso, bem como
avaliação clínica constante por profissional gabaritado.
MANEJO
O objetivo do manejo de uma propriedade consiste em fornecer aos animais um ambiente apropriado e único. Dentro deste item podemos
considerar vários tipos de manejo, como alimentar, reprodutivo e sanitário.
Tomando como ponto de partida que o cavalo é um animal extremamente social, o manejo de um haras terá de respeitar algumas regras
sociais básicas como facilitar o contato entre os animais, propiciar área suficiente para pastoreio, para que assim os animais
atinjam a média diária de locomoção e permitir sim a instituição de uma hierarquia dentro de cada
lote.
Os animais também deverão ser condicionados ás práticas da propriedade como manejo reprodutivo, arraçoamento,
pesagem, tempo de permanência nas baias e de contato com os tratadores. Não se deve esquecer que o cavalo atleta passará boa
parte de sua vida em competição e dentro de uma baia.
Dentro do manejo sanitário, as práticas mais comuns são vacinação, vermifugação e casqueamento.
A realização e frequência de cada prática será de acordo com as características da propriedade e
sua localização geográfica. Atualmente, a profilaxia é a prática de maior atenção nos
eqüinos. Um programa de vacinação correto de um plantel, evitará surtos infecciosos e abortos, a
vermifugação deverá ser levada em consideração, já que alguns parasitas passam da mãe para o
produto e o casqueamento levará á formação de bons aprumos e estruturas relacionadas, evitando alguns defeitos de
conformação graves que afetam a vida atlética. O importante é estabelecer um ambiente saudável na propriedade,
priorizando a convivência com a flora existente e não a sua modificação ou total degradação, estas
causadas pelo uso abusivo de desinfetantes.
Existem pontos cruciais durante o processo de criação, como o desmame e a doma, processos que levam a um enorme seqüestro de
nutrientes de vários órgãos. A perícia com que estes eventos são manipulados é que vai determinar o
nível de estresse a que os animais serão submetidos. O início das atividades atléticas deverá ser baseado em
critérios clínicos sólidos e coerentes com o desenvolvimento físico do cavalo.
Resumindo, não se deve esquecer que o cavalo é um animal que adora a rotina. Sendo assim, deverão se evitar ou minimizar
as causas de estresse que tenha influência negativa na criação do cavalo atleta ou que atrasem sua evolução.
Todos os itens descritos são influenciados diretamente pelo fator humano. Não podemos nos esquecer de quem convive com os animais é
que sabe realmente onde estão os pontos positivos e negativos de uma criação, e por vezes, são a própria origem do
que ocorre na propriedade.
O ciclo de criação poderá variar entre os criadores mas dificilmente passará de 4 anos. Neste período poderão
ser aperfeiçoadas práticas, observar defeitos e estipular critérios visando sempre a melhoria do ambiente e conseqüentemente
a boa formação do cavalo de corrida. O importante para o criador é estabelecer um ponto chave entre o seu staff, práticas
exercidas e seu plantel.
A realização de um bom trabalho de criação será observado durante a vida atlética do animal, onde além
de uma campanha vitoriosa, alguns processos traumáticos serão evitados ou reduzidos, isto de acordo com a intensidade do exercício
imposto, gerando assim maior economia e aproveitamento competitivo do atleta.
SÍNDROME CÓLICA EM EQUÍNOS: PROCEDIMENTOS BÁSICOS
INTRODUÇÃO
A síndrome cólica é considerada pelos proprietários e veterinários de cavalos como
um dos mais importantes entre os problemas médicos eqüinos. Segundo dados recentes, 2% dos animais em um plantel terão sido afetados
anualmente pela cólica e 15% das mortes de animais com mais de 30 dias de vida são devidas a esta síndrome. O termo cólica
abrange cerca de 100 afecções que produzem dor abdominal. Apesar de tal importância, conhecemos relativamente pouco sobre os fatores
que provocam cólica, especialmente as ocorridas a campo.
INCIDÊNCIA E CAUSAS
A idade, sexo e raça estão associados a fatores de risco, bem como alimentação e manejo. No caso do PSI, os tipos de
cólica de acordo com a idade são:
Potros até desmame: retenção de mecônio, torção do intestino delgado (intussussepção),
Atresia coli, úlceras gástricas e duodenais, diarréia.
Desmame até 1 ano: gastrite, impactação por vermes
Sobreano: obstruções por corpo estranho, intussussepção do colón menor, deslocamentos de colon maior,
aprisionamento do intestino em canal hepático.
Após 2 anos: impactação do ceco, enterólitos (pedra no intestino), torção de cólon,
aprisionamento de intestino em ligamento abdominal, dilatação gástrica.
Acima de 16 anos: tumores e rupturas de ligamentos;
e de acordo com o sexo são:
Garanhões: tumores do tipo lipoma e hérnia escrotal.
Éguas: torção de útero, hérnias abdominais internas.
Quanto aos fatores alimentação e manejo podemos salientar como causas de cólica o estabulamento excessivo dos animais sem acesso
a fibra (feno ou pasto), acesso restrito a água, consumo excessivo de grãos, falta de desparasitação e falta de
exercício.
DIAGNÓSTICO
O diagnóstico de cólica é primeiramente baseado na observação, onde é constatada a presença de dor no
animal através de suas atitudes como rolar no chão, cavar, intensa sudorese e olhar para os flancos.
Os métodos empregados para o diagnóstico variam entre os veterinários. Porém, entre os
mais importantes estão a detecção pela auscultação de movimentos intestinais e presença de espasmos ou
gás, aferição de batimentos cardíacos, circulação sanguínea e movimentos respiratórios,
palpação retal, sondagem nasogástrica e resposta á medicação. Outros exames auxiliares incluem a endoscopia
gástrica, ultrassonografia e a paracentese abdominal para coleta de líquido.
O importante na fase de diagnóstico é saber diferenciar uma cólica que pode ser resolvida clinicamente de uma de tratamento
cirúrgico. Para isto alguns fatores deverão ser considerados para a decisão cirúrgica como:
A) intensidade da dor, onde ocorre ausência de resposta aos analgésicos.
B) exame retal, onde serão constatados deslocamentos do intestino delgado e colón, ou ainda a presença de corpo estranho.
C) refluxo gástrico constante ou maior que 6 litros através da sonda
D) ausência de sons abdominais
E) no caso do exame do líquido do abdômen, severas alterações na sua composição.
TRATAMENTO
A porcentagem dos casos de cólica que necessitam de tratamento cirúrgico é pequena comparada com aqueles que se resolvem
através de tratamento medicamentoso. No entanto, é essencial que a assistência veterinária seja rápida. Este
tratamento tem como objetivo aliviar a dor do animal, retirar o excesso de gás formado no intestino, manter circulação
sanguínea estável, evitar a desidratação e promover a movimentação do intestino.
Para o alívio da dor visceral são utilizados analgésicos como a flunixina meglumina ou a fenilbutazona na dose recomendada
pelo fabricante, que poderá ser repetida de acordo com a intensidade e a ciclicidade da dor. Em casos mais graves poderão ser
utilizados sedativos como o butorfanol ou a xilazina, que além de promoverem o alívio do animal, ajudam a contê-lo,
auxiliando no manejo veterinário.
A hidratação deverá ser instituída prontamente e ser mantida até a resolução do caso. A escolha do
tipo de soro a ser empregado deverá seguir as orientações do médico veterinário, mas tem como base o lactato
de sódio. Como regra, a hidratação poderá ser feita até o animal urinar.
A retirada do excesso de gás é feita através de sonda nasogástrica e em casos mais graves através de
trocaterização do ceco, ou seja, colocação de cateter ou similar através do abdômen para retirada
direta do gás acumulado no local, promovendo assim descompressão do intestino e alívio da dor.
É de salientar que todos estes procedimentos deverão ser realizados pelo veterinário responsável, sendo que o
resultado positivo depende da interação de todos os itens descritos, e não de um em particular. Enquanto espera a chegada
do veterinário, o animal poderá ser mantido a pasto e observado se não estiver rolando ou se deitando, e na presença
destes últimos sintomas, o animal poderá ser caminhado puxado para evitar que se machuque ou a alguém.
SUGESTÕES DO AUTOR
- Evitar uso indiscriminado de analgésicos.
- Fornecer no mínimo 60% de toda a alimentação em pasto ou feno
- Tentar não pastorear os animais muito rápido em pastagem verde, fazê-lo de forma gradativa, sendo isto
válido para a troca de ração.
- Limitar a ingestão de grãos em no máximo 50% da ração fornecida.
- Utilizar fontes de óleo quando são requisitadas mais calorias na dieta.
- Fornecer sistema alimentar higiênico, onde o animal não consiga ingerir terra ou areia.
- Sempre que possível, manter ambiente de pastagem limpo, livre de cordas e plásticos.
- Prover exercício diário aos animais.
- Fornecer água limpa e á vontade.
- Implementar programa sanitário e anti-parasitário.
- Minimizar estresse (viagens, estabulamento, doenças e traumas) o máximo possível.
CONFORMAÇÃO, APRUMOS E PROBLEMAS ORTOPÉDICOS NO CAVALO ATLETA: A FORMA PRECEDE A FUNÇÃO
INTRODUÇÃO
Conformação é a forma ou delineamento de um cavalo ou sua aparência física relativa ao arranjo
dos músculos, dos ossos e outros tecidos, ou simplesmente “o relacionamento entre forma e função".
A conformação tem um papel importante no julgamento morfológico de um cavalo. A sua avaliação é
subjetiva e baseada na experiência ou na opinião de cada avaliador. Embora muito já se saiba ao longo de 200 anos de estudo
sobre a conformação dos cavalos e sua relação com o desempenho e problemas ortopédicos, poucos dados objetivos
estão disponíveis aos criadores do cavalo atleta. Exclusivamente neste artigo serão tratados apenas os membros,
lembrando que todo o corpo do cavalo está envolvido na conformação e na sua biodinâmica.
CONFORMAÇÃO DESEJADA
Peito
Olhando o cavalo de frente, os membros dianteiros não deverão ser nem demasiado distantes nem demasiado perto um do outro,
já que juntos formam a largura do peito. Demasiado distantes resultará em uma locomoção roliça, do tipo que
poderá causar enjôo ao cavaleiro. Demasiado perto, predispõe o cavalo aos ferimentos, já que existe o risco do cavalo
tocar os próprios membros quando se move. Estas situações podem ser aliviadas através de casqueamento e ferrageamento,
mas melhor se forem evitadas desde o nascimento. A região peitoral deverá ter boa massa muscular e ser ampla, já que os
cavalos com estas características terão melhor extensão e potência de movimento lateral do que cavalos com peitos fechados.
Joelhos e canelas
Os membros anteriores devem ser retos e não desviados para dentro ou para fora. Devem ser longos e musculados no antebraço e os
joelhos devem ser grandes e lisos, não pequenos nem redondos., devido aos tendões passarem por eles, permitindo assim
movimento e articulação máximos.
A canela não deve ser demasiado longa. Olhando o cavalo de lado, o joelho deve parecer baixo em relação ao membro.
Se parecer elevado, significa que a canela é mais longa do que o ideal, e propensa à fraqueza. A forma com que a canela se
junta no joelho é importante para a funcionalidade do membro. Em alguns cavalos você verá que esta junção
aparece garroteada, onde a canela é mais fina logo debaixo do joelho e termina mais grossa no boleto. Isto pode restringir o movimento
dos tendões. Em alguns casos o cavalo pode estar ajoelhado com a canela se unindo atrás da linha do joelho. O oposto disto é
o chamado joelho transcurvo, onde a linha frontal do membro se torna côncava.
Quartelas
A quartela é a parte absorvente do choque, carregando às vezes o peso inteiro do cavalo, mais aquele do cavaleiro. A quartela ideal,
á semelhança dos membros, seria a nem demasiado longa nem curta, e nem inclinada nem vertical demais. A longa colocará
uma tensão adicional no ligamento suspensório do boleto e nos tendões flexores. A quartela demasiado vertical não atua
suficientemente bem para superar os efeitos de choque do movimento e assim todo o membro pode sofrer com problemas de manqueiras.
Curvilhões e canelas
Quanto ao membro traseiro, os curvilhões são uma das partes mais importantes. Agem como um absorvente adicional de choque.
Assim como o joelho, é preferível estarem num ponto baixo do membro, diminuindo a tensão nas canelas posteriores. A forma
como o alinhamento do curvilhão está ajustado no membro fará uma diferença na sua ação. Idealmente, o
ponto de alinhamento do curvilhão deverá ser debaixo da garupa onde uma linha reta seja possa ser traçada na parte traseira
da canela e continue na parte traseira da garupa. Os cavalos com curvilhões que caem atrás desta linha terão falta de
propulsão. Olhando o cavalo de trás, os membros devem ser retos e sem curvilhão de vaca, quando giram para dentro, acompanhados
pelos cascos girados para fora; ou se curvam em demasia, quando os curvilhões giram para fora. De lado, o cavalo não deve ser ter
curvilhão de foice, onde a borda dianteira parece excessivamente curvada ou dobrada. Todas estas conformações podem causar
manqueiras, comprometendo as qualidades anti-choque do curvilhão.
Casco
O ditado “Sem casco, sem cavalo!” é bem aplicado á conformação. O casco ideal terá de ser
relacionado sempre com seus pares no tamanho e na forma. Os posteriores são maiores e com forma mais oval do que os anteriores. A
muralha deve ser forte e flexível, não fraca nem mole ou seca e dura, mantendo sim a elasticidade. Os problemas com as paredes
do casco significarão que o cavalo terá dificuldade em manter ferraduras. Ao casquear e ferrar o cavalo é necessário
manter o tamanho natural do casco, mantendo os talões na mesma altura, e não o cortando demais para caber a ferradura, causando
assim manqueiras e comprometendo as qualidades anti-choque naturais do casco.Os cascos devem apontar para a frente, não para dentro
(periquito) nem para fora (pato). Devem ter ranilhas bem aparentes, bem-saltadas e não devem ser quadradas nem eretas, como
encontradas nos muares. Os sulcos laterais em torno da parede do casco podem indicar laminite ou, no mínimo, mudanças na taxa
de crescimento devido a doença ou mudanças na alimentação ou estresse.
AVALIAÇÃO DA CONFORMAÇÃO NO PRIMEIRO ANO DE VIDA
Até 15 dias de vida
Olhando de frente, os potros recém nascidos tem 3 tipos de desvios nos membros dianteiros: angulares, rotacionais e deslocamento de
joelho. A avaliação desta conformação em potros destinados á atividade atlética deverá ser
realizada o mais cedo possível, para que a intervenção seja realizada antes dos desvios se tornarem permanentes. Os desvios
angulares são causados por alterações das epífises ósseas ou das articulações, geralmente joelhos
(carpo), curvilhões (tarso) e boletos. Traçando uma linha vertical imaginária em todo o membro, veremos desvios valgus quando
para o lado interno da linha e varus quando para o lado externo. É de salientar que mais de uma articulação no mesmo membro
poderão ser atingidas. As deformidades rotacionais também são comuns e envolvem mais as articulações do joelho
e antebraço no membro anterior e a articulação do empurrador, quando no membro posterior. Ao nível de boletos, ambos
os tipos angulares e rotacionais poderão estar envolvidos.
Geralmente estes desvios ocorrem em potros leves, com peito pequeno, onde haverá forças de pressão assimétricas
sobre os centros de crescimento ósseo e conseqüente crescimento ósseo também assimétrico. Outro fator que
compromete a conformação são os variados graus de ossificação em diferentes ossos devido a uma má
gestação. Este tipo de problema leva a desvio do tipo carpus e tarsus valgus (joelho e curvilhão para dentro) e
hiperflexão (contratura de tendão). O deslocamento do joelho (joelho rodado) é causado principalmente pelo não
crescimento dos ossos desta articulação. O desvio mais comum que requer tratamento cirúrgico é o carpus valgus acentuado.
Os restantes poderão ser corrigidos através de casqueamento corretivo, ferraduras ortopédicas e uso de bandagens e agentes
químicos adstringentes. Desvios raros da arquitetura dos ossos, os varus e valgus congênitos e malformações, tem origem
genética e os procedimentos terapêuticos são baseados na gravidade em que se apresentam.
Dos 15 dias aos 5 meses de idade
Neste período ocorrem várias mudanças no crescimento dos potros. Aqui a conformação sofre a ação
direta da genética, ganho de peso, crescimento e exercício, levando a algumas alterações nos membros dos potros.
Alterações positivas são a perda gradual do carpus valgus e a rotação do boleto para fora. As menos desejadas
são carpus e tarsus varus, joelho rodado e rotação do boleto para dentro. Ao contrário do que se supõe, a
abertura do peito não foi comprovada como fator de correção para mãos abertas e carpus valgus. A primeira
alteração indesejável vista é a chamada mãos para dentro (periquito) que ocorre a partir dos 30 dias de idade.
O joelho rodado também ocorre neste período, e não é tão severo. No entanto, por ter origem no crescimento
desorientado dos ossos do joelho, é uma alteração contínua que deverá ser prontamente resolvida através
do casqueamento corretivo. O carpus varus geralmente é unilateral e poderá ocorrer devido a algum trauma no membro oposto.
Dos 5 meses a 1 ano de idade
As alterações ósseas nesta fase são menos drásticas do que nos períodos anteriores, mas é neste
período que os desvios se tornam permanentes. Os potros ainda estão ganhando peso e enquanto este fator atua nos membros, as
alterações na arquitetura óssea se tornam mais aparentes. Isto é devido á redução de cartilagem e
aumento de tecido ósseo nos membros. Os desvios mais comuns nesta etapa são a mão para dentro e joelho rodado em graus severos.
Apesar da gravidade, alguns fatores de crescimento ósseo ainda possibilitam o tratamento através de casqueamento e ferrageamento
corretivos e até cirúrgia com colocação de grampos.
PROBLEMAS ORTOPÉDICOS E CONFORMAÇÂO NO QUARTO-DE-MILHA
Uma pesquisa feita com cavalos quarto-de-milha no hipódromo de Los Alamitos (Anderson, Mcllwraith, Goodman and Overly, 2003) constatou a
relação direta entre problemas ortopédicos e conformação. Dentre as mais variadas
associações, as mais observadas foram as seguintes:
- Úmero longo está associado a fraturas das falanges proximais e sinovite dos joelhos.
- Membro anterior longo, pescoço longo e pinças dos cascos longas, levam a fraturas do tipo “chip” no joelho.
- Aumento do ângulo da paleta está associado a fraturas dos ossos do joelho e á diminuição da incidência
de sinovite na mesma articulação, o que é contraditório.
- A quartela mais vertical leva a maior inciência de sinovite no joelho e boletos
- Mãos muito para fora estão associadas a uma maior chance de ocorrer fraturas de ossos do joelho, especialmente do direito.
- Joelhos rodados levam a um aumento da ocorrência de fraturas e sinovites de ambos os joelhos e á formação de
sobreossos nas canelas.
- Joelhos transcurvos levam a uma maior incidência de fraturas no joelho logo no início das atividades atléticas.
PROCEDIMENTOS CORRETIVOS
O cavalo perfeito é difícil de ser encontrado, mas alguns defeitos podem ser corrigidos. Porém, devido á capacidade
do cavalo carregar peso ser dependente da inter-funcionalidade de todas as partes locomotoras, é importante que estas se alinhem
corretamente, a fim de serem o mais eficientes possível.
A correção dos desvios de membros terá de obedecer não apenas a uma aparência visual alinhada mas também
a toda uma biodinâmica. Ou seja, não adianta apenas deixar o membro alinhado, ele deverá estar simétrico com os demais
e todas as articulações deverão estar preservadas e a locomoção equilibrada. Para tal é recomendado o
casqueamento corretivo dos potros a partir dos 20 dias de idade e regularmente a cada 25-30dias até início das atividades
atléticas. Também poderão ser utilizadas ferraduras ortopédicas em casos mais graves. O uso de substâncias
adstringentes como o iodo também é outra terapia que quando bem utilizada, retorna ótimos resultados. Na opinião
do autor, os procedimentos cirúrgicos deverão ser empregados em último caso ou em casos de gravidade acentuada, já
que não deixam de ser um trauma ao membro do cavalo.
O objetivo de aprumar e alinhar os membros do cavalo não é apenas estético e preventivo de problemas ortopédicos,
mas também serve para evitar perdas de tempo nas provas de velocidade e trabalho devidas á locomoção inadequada.
Todos os desvios levam a perda de décimos de segundo, os quais poderão ser preciosos para a decisão de uma prova ou
campeonato.